Sobre

Nasci em uma família mineira cercada de cozinheiras de “mão cheia”. Minha avó, tias-avós, mãe e tias viviam a fazer doces, quitutes e quitandas para deliciosos encontros familiares onde geralmente acontecia na cozinha, o lugar mais bacana da casa.

Cresci ouvindo as conversas, sentindo o cheirinho do café passado na hora, do pão de queijo assando no forno, do perfume da canela sendo polvilhada sobre o bolo de fubá e aprendendo os segredos e truques de uma boa receita. Seguindo a tradição de minha família, também me apaixonei pela cozinha.

O nosso processo de descoberta e convivência com as restrições alimentares iniciou-se poucos dias após o nascimento de nossa filha, Mila. Cólicas constantes, chiado no peito, irritabilidade durante as mamadas e muita dificuldade para dormir foram os seus primeiros sintomas. Diarreia persistente e uma assadura severa que lesionou sua pele com uma queimadura de 2º grau foram o auge das reações e os piores dias da minha vida. Pouco tempo depois identificamos a presença de sangue em suas fezes. Buscamos um especialista e fui orientada a realizar a dieta de exclusão de vários alimentos alergênicos e posterior teste de provocação oral. Diagnóstico de alergia às proteínas do leite de vaca confirmado e uma dieta restrita iniciada. Com o decorrer do tempo fomos introduzindo novos alimentos e algumas outras alergias foram se confirmando.

Logo nos primeiros dias percebi que a “exclusão” não se referia apenas aos alimentos alergênicos. Na verdade, a exclusão real se referia ao modo como a sociedade se nega a acolher pessoas com necessidades alimentares especiais e seus familiares. Independente dos espaços que frequentávamos ou das pessoas que convivíamos, a exclusão transformou-se em um padrão de comportamento incontornável em nossas vidas. Foi assim que ambientes antes agradáveis e prazerosos, se converteram em uma autêntica “liga da exclusão”.

Em um contexto tão adverso, o retorno à cozinha foi o caminho inevitável. Mas como cozinhar sem os ingredientes considerados até então fundamentais? Fiquei completamente perdida.

Com o passar dos dias e após várias horas de dedicação, a ansiedade e a decepção das primeiras receitas deram lugar a experimentação de novos ingredientes e a descoberta de novos sabores. Já era possível comer um bolo fofinho e um pão macio com casquinha crocante sem riscos.

Compartilhava as receitas nas redes sociais, em alguns grupos de mães de crianças alérgicas, e algumas pessoas começaram a testá-las e a gostar dos resultados. Foi aí que criei o Menu Bacana, um espaço de compartilhamento de receitas testadas e fotografadas, com explicações e adaptações pensadas para a culinária especial sem glúten, leite, ovo e soja.

Tive formação acadêmica em Direito e trabalhei por mais de 10 anos na área de inclusão social. A realidade que passamos a vivenciar com a alergia alimentar de nossa filha, além de evidenciar a importância do resgate do ato de cozinhar, remeteu-me mais uma vez ao tema da inclusão, agora para evidenciar a necessidade de reflexão sobre a diversidade alimentar em nossas práticas sociais, costumes e tradições e sobre o reconhecimento de que vivemos em um sistema que nega a pluralidade alimentar e considera a todos como sujeitos uniformes e desprovidos de diferenças no que tange a sua identidade alimentar.

Quando Mila nasceu, me afastei daquela que era a minha profissão. Quando Mila foi diagnosticada com alergia alimentar, me reaproximei da cozinha, e assim nasceu um novo projeto, a Cozinha Inclusiva, que não deixa de ter uma ligação estreita com aquilo que entendo por respeito à diversidade.

Acredito que é preciso vivenciar as restrições alimentares de forma positiva. A maneira como vivemos nosso dia a dia, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos, pode ter como efeito um processo que promove a cura em todas as pessoas envolvidas nesse contexto de sujeição a uma dieta, em razão de uma necessidade alimentar especial. Passamos a reaprender a forma de nos relacionarmos com atividades importantes de nossas vidas, como o comer, o conviver e o compartilhar.

Devemos construir um novo olhar sobre a comida e o ato de cozinhar, no qual a inclusão se torne o principal ingrediente e o acolhimento o tempero indispensável. Não se trata de desconstruir práticas culinárias centenárias, mas, ao contrário, promover um convite à experimentação de novos sabores, de modo a substituir os alimentos alergênicos por outros alimentos com funções similares. Com uma boa dose de acolhimento e uma pitada de criatividade, qualquer prato pode ser compartilhado por todos, sem exceções.

Hoje não tenho somente a intenção de compartilhar receitas, mas, sobretudo, promover o empoderamento de pessoas a se sentirem capazes de elaborar seus próprios alimentos com o objetivo de transformar uma realidade de exclusão em um convite ao acolhimento.

Realizei diversos cursos na área de culinária especial e atualmente curso Gastronomia. Espero que o meu trabalho chegue àquelas pessoas que precisam de apoio. Com apoio podemos perceber que não estamos sozinhos, mas sim juntos em busca de um caminho mais ameno nessa estrada de convivência com as restrições alimentares.

A Culinária Especial tornou-se o meu trabalho e a Cozinha Inclusiva o meu lugar.

Por Carla Maia