Cozinha Inclusiva

No incerto e complexo mundo “pós-diagnóstico” de alergia alimentar, a única certeza em nossas vidas é a profunda alteração na relação entre o indivíduo e o ato de comer. A percepção de que a sociedade, centrada no consumo de produtos industrializados, não está programada para acolher a diferença alimentar será, na maioria das vezes, imediata. Na luta pela adaptação a esta nova rotina, o indivíduo e seu núcleo familiar, se vêem envolvidos em um turbilhão de sentimentos dúbios e paradoxais acerca da aceitação desta nova realidade.

Grande parte deste problema tem uma origem mais complexa, pois se relaciona com o modo como construímos socialmente a relação com a comida. Sim, a relação com a comida é uma relação cultural, digo, construída a partir de valores, costumes e tradições – e não apenas um ato mecânico composto pela mastigação e deglutição. Ora, se a alimentação é uma construção cultural consolidada ao longo da história, o principal objetivo é compreender qual é o modelo cultural que o alérgico está inserido e quais as possibilidades de transformação desta estrutura enraizada em nossos hábitos.

Não há dúvida de que o padrão cultural alimentar vigente pode ser chamado de paradigma da indiferença alimentar, ou seja, um conjunto de práticas sociais, costumes e tradições que nega a pluralidade alimentar de uma sociedade, pois considera todos como sujeitos uniformes e desprovidos de diferenças no que tange a sua identidade alimentar. O paradigma da indiferença alimentar está presente em todas as instituições, como a família, a escola, a indústria e o Estado.

O primeiro plano da indiferença alimentar é a família e o círculo de amizades mais íntimo do alérgico. O núcleo familiar é, em regra, um ambiente seguro para o indivíduo, pelo simples fato de ser um espaço de acolhimento e afeto. É verdade, porém, que o diagnóstico da alergia alimentar, em muitos casos, estremece essa nossa percepção, pois o ambiente familiar torna-se um lugar de desinteresse e passividade em relação às alterações necessárias na rotina de uma pessoa que deve se sujeitar a uma dieta de exclusão.

O segundo grau da indiferença alimentar é o ambiente escolar. Não resta dúvida que a escola representa um fator determinante na socialização da criança, principalmente na primeira infância. A verdade, porém, é que a escola – pública ou privada – constitui um ambiente que reforça o paradigma da indiferença alimentar, pois ainda não está qualificada para debater o tema. Em conseqüência, caracteriza-se a socialização do alérgico e seus familiares pela naturalização da exclusão, na qual a criança deve buscar se adaptar ao mundo que não a reconhece como um sujeito dotado de uma identidade alimentar própria e única.

A terceira dimensão da indiferença alimentar é a indústria alimentícia. De fato, o complexo industrial alimentar se mostrou, ao longo dos anos, indiferente à diversidade de identidades alimentares.

E, por fim, o quarto elemento que reforça a indiferença alimentar é o Estado. A alergia alimentar ainda não constitui um tema prioritário nas agendas das políticas públicas dos Municípios, Estados e da União. A democratização do fornecimento da fórmula especial constitui uma bandeira importante na luta pelo reconhecimento da diversidade alimentar, mas não pode ser a única ação estatal em busca da promoção da saúde e bem-estar de uma coletividade.

Como promover a ruptura com o paradigma da indiferença alimentar?

Neste cenário de adversidade, a palavra chave é inclusão e, consequentemente, o reconhecimento da diversidade alimentar. Mas de que tipo de inclusão nós estamos falando? Ora, da inclusão do diferente na cozinha; da inclusão da afetividade no ato de cozinhar; da inclusão do convite à experimentação. Tenho chamado esta postura de cozinha inclusiva. Acredito que o ato de cozinhar de modo inclusivo pode se tornar uma importante ferramenta política em busca da inclusão da pluralidade alimentar.

A cozinha inclusiva, portanto, perpassa todas as camadas da indiferença alimentar.

Na família, a cozinha inclusiva proporciona a reaproximação com o alimento e com o ato de cozinhar. A cozinha inclusiva pode causar um efeito que promova um processo de cura em todas as pessoas envolvidas nesse contexto de vivência e sujeição a uma dieta, em razão de uma necessidade alimentar especial. Vamos reaprendendo a forma de nos relacionarmos com atividades importantes de nossas vidas, como o comer, o conviver e o compartilhar.

Na escola, a cozinha inclusiva pode representar uma nova forma de pensar a socialização alimentar da criança. A cantina, os aniversários dos colegas e as festas das escolas devem se tornar um espaço de reflexão sobre a inclusão alimentar. Afinal, uma festa da escola de fim de ano, por exemplo, ao não reconhecer a identidade alimentar do alérgico reproduz uma pedagogia de exclusão.

Na indústria, a cozinha inclusiva deve questionar o modo como a informação é transmitida com segurança – daí a importância de movimentos organizados da sociedade civil -, além disso, deve refletir se o excesso de alimentos industrializados também não representa uma das principais causas da exclusão alimentar.

Por fim, em relação ao Estado, a cozinha inclusiva deve buscar incluir na agenda das políticas públicas o reconhecimento da pluralidade alimentar.

cozinha-inclusiva

Em linhas gerais, a alergia alimentar deve ser encarada como uma janela de reflexão sobre o modo como naturalizamos a nossa relação com certos tipos de alimentos e, portanto, como não reconhecemos a relevância da diversidade alimentar em nossa comunidade. Se a cozinha para o alérgico tornou-se um lugar de perigo, incerteza e medo, a cozinha inclusiva é uma atitude em defesa ao resgate do ato de cozinhar e um espaço de empoderamento, onde cada indivíduo, ao reconhecer-se capaz de elaborar seu próprio alimento, torna-se também um agente transformador apto a inspirar um novo olhar sobre a nossa cultura de exclusão.

Por Carla Maia

34 comentários sobre “Cozinha Inclusiva

  1. Camila C. disse:

    Oi Carla!
    Eu estou concluindo o 3º semestre de nutrição, e ultimamente o que vem me chamando muito atenção, atraindo meu interesse e curiosidade é sobre a alimentação de crianças, especialmente com restrições alérgicas.
    Hoje recebi um convite para participar da 3º edição da Conalco e estava lendo sobre os palestrantes e você estava lá, me interessei e busquei você nas redes sociais, até chegar aqui e simplesmente me encantei pela sua história e trabalho.
    Com certeza irei testar muitas receitas e a partir de agora te seguir em todas redes sociais. Parabéns pelo trabalho e muito sucesso!!
    Abraço.

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  2. Luciana disse:

    Oi, Carla! Tenho filhas gêmeas com alergia alimentar múltipla. Aos 4 meses um gastro pediatra mandou desmamá-las pois elas precisavam ganhar peso e eu, com a dieta de exclusao, não iria produzir leite suficiente. Eu, contrariando as recomendações médicas, apostei em seguir com a amamentação e procurei receitas para que meu leite não diminuísse e eu seguisse com saúde para amamentá-las. Hoje, com 8 meses, elas seguem mamando, e eu, em dieta, embora já tenha incluído carne bovina e milho. Seu site me ajuda muito. Todas as receitas que fiz foram maravilhosas! Sem duvida elas me ajudam a seguir firme na dieta! Obrigada por compartilhar!

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  3. Josiane disse:

    Oi, como vai? Sei blog é muito bacana! Não uso goma xantana, pois não me faz bem. POsso retirá-la das receitas, ou como posso substitui-la? Obgda.

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  4. Amanda disse:

    Nossaaa A M E I essa página, vocês nao sabem o bem que estao fazendo…Minha filha tem 7 anos e tem dermatite atopica, estamos morando na Argentina e aqui é muito dificil de encontrar alimentos saudaveis,quando acho é muito caro, ai faco o que posso em casa, como farinha de arroz… Estou APAIXONADA pleo menu bacana. MUITO OBRIGADA!!
    Ah, uma duvida, posso substituir levedura nutricional pelo que?, nao achei aqui de jeito nenhum.

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  5. Carla Maia disse:

    Oi Waleska! Sinta-se abraçada por mim! Aquele abraço apertado de quem já passou por isso também. Não se desespere, com o tempo tudo vai se ajeitando e vamos nos acostumando com a dieta e descobrindo que nunca nos alimentamos tão bem quanto agora! Muito obrigada pelo seu carinho. 🙂

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  6. Waleska disse:

    Meu filho de três aninhos está sendo investigado quanto a ter doença celíaca. Um choque pensar na possibilidade de ter meu filho excluído so universo de quem pode comer tudo. A hora do lanche, as festinhas … tudo fica mais difícil. Um alento encontrar essas espacos que trazrm esperança de que tudo pode ficar bem.

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  7. Carla Maia disse:

    Oi Marcilene! Fico muito feliz por você ter gostado das receitas! Você vai conseguir sim reproduzir as receitas que quiser e se tiver alguma dúvida, é só chamar a gente! Para saber mais informações sobre os nossos serviços, por favor, envie um email para menubacana@hotmail.com onde possamos conversar com maiores detalhes! Muito obrigada pelo carinho e interesse! 😉

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  8. Marcilene disse:

    Olá. Estou conhecendo o site de vocês hoje e estou muito feliz e esperançosa de conseguir reproduzir as receitas.
    Meu filho de 7 anos foi diagnosticado com alergias múltiplas e está sendo muito difícil conduzir toda essa reeducação alimentar com inclusão de novos hábitos.
    Estou empolgada em fazer o Chico fone e o bolinho de rabanada.
    As restrições dele são : ovo, leite, soja, milho, trigo, corante vermelho, banana, carne bovina.
    Percebi que grande parte das receitas de vocês já não possuem a maioria desses itens.
    Graças a Deus!!!!

    Fiquei interessada em conhecer o serviço de vocês de ensinar a cozinhar vindo até nossa casa e nos orientando. Gostaria de obter mais informações.

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  9. Elaine Garcia Bussolan disse:

    Olá Carla, bom dia! Estou muito feliz em encontrar este site. Meu filho tem 2 anos e 9 meses e também tem alergias multiplas. Seu diagnóstico é positivo em: Além da lactose, todas as proteínas do leite, ovo, soja, trigo, carne de porco e tomate e seus derivados. Sua sensibilidade está ao toque e até mesmo ao que evapora no ambiete. imagino sua preocupação com seu bebê. Realmente fazemos milagres com os os ingredientes e não medimos esforços para dar tudo de melhor aos nossos pequenos. Acho que poderemos trocar boas experiências, será um prazer! Bjs

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  10. Maria Fernanda disse:

    Que grata surpresa descobrir esse site!! Meu filho de 7 anos tem alergia severa às proteínas do leite, à lactose, à ovo e outros alimentos e achar receitas que façam seus olhinhos brilherem é um presente. Moramos no interior e não é fácil achar ingredientes que possam ser usados, além disso buscamos algum médico que nos diga que há uma maneira de pelo menos diminuir a agressividade dessas alergias, mas por enquanto nada. Muito obrigada por dividirem conosco tanto cuidado e amor com os alimentos. Alergias severas assim não são fáceis para uma criança. Faço votos que o site nunca saia do ar. Que Deus abençoe vocês!!

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  11. Menu Bacana disse:

    Oi Francisca! É só se cadastrar no link “Direto do Forno” no canto esquerdo do site que receberá por email todas as nossas publicações. 😉

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  12. Analice disse:

    amoooo suas receitas! mas gostaria de saber se vc tem uma receita legal bolo de caneca? procurei varias e ainda não achei uma que me deixasse feliz!!!
    aguardo resposta

    bjos

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  13. Jaqueline disse:

    Uma dúvida!
    Para substituto do ovo usar o purê de inhame cozido certo?Qual a qtde que substitui 1 ovo??Obrigada!!!

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  14. Edna disse:

    Que bom que vc divide e compartilha suas receitas….
    Nós que somos intolerantes e alégicos temos poucas opções de comida fora de casa e
    então o melhor é fazer uma boa comida , nutritiva e segura, em casa;
    Obrigada pelas suas receitas.

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  15. Menu Bacana disse:

    Oi Carlos! Poxa, muito obrigada por sua mensagem. É uma alegria enorme saber que nossas receitas chegam até a cozinha de outras pessoas e cumprem sua função. Gratidão enorme por toda atenção e carinho! 🙂 🙂 🙂

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  16. viviane disse:

    Oi amei suas receitas agora vou tentar fazer espero que minha filha goste ela tambem tem alergia multiplas e muito dificil acha produtos pra ela .mas vai dar tudo certo queria tambem uma receita de danone ela ama danone

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  17. Menu Bacana disse:

    Oi Livia!
    Depois do diagnóstico de alergia alimentar, a vida muda. Chegou a hora de começarmos a dieta, já que ela é a base do tratamento da alergia alimentar. No início não é fácil. Estamos acostumados a consumir diariamente inúmeros produtos industrializados, que contém vários alimentos alergênicos em sua composição e, a partir de agora, vários cuidados deverão ser incorporados à nossa rotina.
    Esse blog nasceu junto com nossa filha, alérgica alimentar múltipla. Ela apresentava sintomas digestivos, cutâneos e respiratórios, controlados com a realização adequada da dieta de exclusão de alérgenos.
    A dieta é tão importante porque só assim, o sistema de defesa do alérgico não irá produzir as células e anticorpos responsáveis pela reação, o que acarretará a remissão dos sintomas. Comprometer-se em realizá-la de forma adequada e criteriosa é que vai determinar a evolução do tratamento. Devemos mudar a maneira como nos relacionamos com os alimentos e estar abertos a novos sabores, novas texturas e novos aromas.
    A alimentação não pode se tornar um momento de sofrimento. Sujeitar-se à dieta não pode ser sinônimo de privação, mas sim de libertação. Imagina só ficar livre de uma vez por todas dos sintomas que você relatou?
    Fique tranquila, no começo é realmente assutador, mas com o tempo você vai perceber como a nossa alimentação, hoje em dia, baseia-se em produtos industrializados e, a partir dessa conscientização, um importante processo de cura se inicia, com a exclusão ao máximo daqueles produtos. Passamos a cozinhar a maior parte dos alimentos que consumimos e aprendemos que uma alimentação segura e saudável é muito importante para a melhoria da qualidade de vida!
    Um abraço carinhoso e precisando de uma forcinha, é só falar! 😉

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  18. ELIANA disse:

    Oi, Lívia e Carla !! comprovei minha alergia à lactose há mais de dez anos, mas minha mãe lembrou que eu reclamava de dores após tomar leite desde criança, ( hoje tenho 50 ) quando íamos imaginar naquela época, que o leite faria mal à alguém, rsrsrs, enfim, continuei me alimentando sem restrição, por teimosa, porque tinha bastante desconforto na digestão, com muuuuito gases no estômago, diarreias, cólicas etc, há um ano, meu gastroenterologista, aconselhou que eu tirasse totalmente a lactose e tbm o glúten da minha alimentação, após quatro, cinco dias, já senti alívio de 90% dos sintomas, desde então raramente consumo algo que contém esses ingredientes, e além do alívio mencionado, perdi peso com muita facilidade, e me sinto bem melhor, até mais disposição que antes, espero que você consiga, porque admito, nem sempre é fácil. Amei esse blog com tantas receitas e dicas, mas tenho pouquíssimo tempo para cozinhar, e comprar tudo pronto, é difícil de achar e geralmente bem mais caro que o convencional, portanto é um desafio que vale a pena. Deus as abençoe !!!

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  19. Alessandra disse:

    Acabei de conhecer sua história e suas receitas e estou amando. Muito obrigada por compartilhar. Gostaria de saber se vc já ouviu falar da imunoterapia ? Pois tenho um filho de 6 anos que está com alergias múltiplas e o imunoalergista indicou as vacinas que segundo ele vai diminuir o IGE dele que dá mais de 4000

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  20. Livia Sobral disse:

    Oi, gente! Descobri minha alergia às proteínas do leite,clara de ovo e intolerância à lactase há 1 semana e ao primeiro instante, fiquei arrasada. Primeiro, pq eu AMO ovo e conforme eu me lembrava que TODAS as coisas maravilhosas da vida levam ovo e/ou leite; a vontade de chorar só aumentava.
    Resolvi pesquisar na internet e encontrei esse blog (já adicionado aos favoritos de leitura obrigatória). O que eu gostaria de saber e não encontrei por aqui, é quais são os sintomas que vc observou melhoras no seu corpo fazendo esse tipo de dieta restritiva, pq eu, sinceramente, sinto apenas mal estares , gases, refluxos, nada tão aterrorizante.
    Estou disposta ficar 1 mês sem esses alimentos e tentar observar se a melhoria obtida com a restrição é válida. ler um relato vai ser mais acalmante tb.
    Muito obrigada pelo seu tempo dedicado desde já.

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  21. rosarialobo disse:

    Quem ganha com tudo isso, Carla, com certeza, somos nós, que podemos usufruir das suas descorbertas culinárias tão maravilhosas.
    Obrigada, querida!
    Bjo

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